Quinta-feira, Junho 09, 2011

Vou estar na palavra que te não disse
porque é essa que leva a verdade
na inteireza que mais nenhuma.
E porque dizer redu-la,
inscrevo-te no silêncio
da noite mal dormida
do frémito, da inquietação.
E sentirás apenas o roçar
de uma pena de pavão
na tua face
antes de emudecer no chão.
JATH

Sábado, Abril 16, 2011

Muitas Vezes

É preciso repensar tudo, às vezes. Reescrever cada certeza, cada dogma, cada verdade. Questionar a essência do que somos (do que temos sido) para podermos ser melhores. Pesar os princípios, medir os limites, definir, definir alguma coisa, para que tudo não seja não importa o quê. Para que não sejamos levados pelas enxurradas dos dias, dos anos, da vida. Alheios a tudo o que fizemos e ao que de nós fizemos. Às vezes é preciso parar. Perceber quem está ao nosso lado e por quê. Ler a história e conferir-lhe um sentido. Para que os outros não sejam só mais uns. Para que sejam importantes e tenham um lugar privilegiado e nos sintamos aconchegados neles e eles em nós. Às vezes é preciso fazer perguntas: o que importa? quem importa? e como e a que preço? No isolamento que este estado exige, é preciso saber estar só, sem entrar em pânico, nem nos vitimizarmos ou nos miserabilizarmos. Essa solidão temporária é precisa, como uma ferida requer um penso para cicatrizar melhor, sem incidentes nem interferências. Ninguém sai de si para passar a ser outro. Ninguém se vê de fora e por isso é preciso muita concentração para reduzir ao máximo a subjectividade, nesses momentos em que verdadeiramente nos pensamos e nos pesamos. Podemos não ser os melhores, mas podemos sempre ser melhores. Até para connosco. Até para nos sentirmos melhor. Não deixamos de ser falíveis nunca, mas reconhecendo as nossas fragilidades, podemos olhá-las de frente e crescer com elas. Às vezes é preciso simplificar. Voltar a ser só uma criança de seis anos, que faz as perguntas certas: porquê? para quê? E como a uma criança, dar respostas simples. Sem nos escondermos por trás da falsa complexidade das coisas. (…) Às vezes é preciso parar para pensar, pensar de novo. E refazermo-nos, como quem muda de paradigma. Às vezes é preciso deitar muita roupa fora, para comprarmos uma nova, muito mais justa ao que somos ou para ficarmos simplesmente nus, a preterir o acessório e passageiro, pelo que nos define tanto quanto a nossa pele. Às vezes, e depois de parar e pensar, é preciso mudar tudo, dizer um palavrão, bater em alguém, decepcionar um amigo, terminar uma relação, esquecer um amor antigo, deixar nascer um novo, mudar de casa, mudar de emprego, mudar de curso, mudar de cidade, mudar de nome, mudar de sexo, mudar de visual, mudar de ideias. Às vezes é preciso calar, até mesmo emudecer, para que quando dissermos, saibamos exactamente o que dizer… JATH

Sexta-feira, Janeiro 21, 2011

Má Educação

Quem te ensinou as más maneiras
de sorrir como quem abre caminhos
e esperar paciente
à beira da praia?
e a ser suave e doce
quem te disse
que assim é que era?

E a partir sem prometeres
que voltas (dê as voltas
que o mundo der)?

Quem te educou para viveres longe
e para seres a sombra
que se afasta verical?

E o silêncio que chega ao final do dia?

JATH

Domingo, Janeiro 09, 2011

Monólogo da Princesa de Metal


Gostaria de beijar o meu príncipe

mas não posso. Uso aparelho!

E se o ferir na boca?

Por deus! Se lhe atrapalham os arames?

Se o magoo? Não posso magoar o meu príncipe!


Podia beijá-lo só na face

se eu não fosse tão voraz

e ele talvez fosse capaz de querer

a outra face

e depois os lábios.

Levaria pouco tempo até perceber

que por dentro sou de metal.

Ó! uma princesa de metal!...


Posso pedir-lhe para esperar dois anos.

Eu prometo-lhe que o farei feliz.

E dar-lhe-ei os beijos que quiser

Assim que der para tirar

o aparelho.


JATH

Sábado, Janeiro 08, 2011

Deixei de contar as Horas
Os teus silêncios longos
e repetidos.
As mentirosas razões.
Deixei de contar as vezes
e reveses. Não vieste.
Hoje deixo de contar.
Não conto mais.
Não conto mais contigo.

JATH

Segunda-feira, Dezembro 27, 2010

Ai flores de verde-pinho

«Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo!
Ai Deus, e u é?» (Dom Diniz)

Ai flores de verde-pinho
se vistes por aí o meu amigo
perguntai-lhe se virá cedo
é que a noite vem e tenho medo
ai, ó flores, que se perca
pelo caminho.

Perguntai-lhe se virá ledo
e quão cá se alongará
q'amanhã trabalho cedo.

Ai flores de verde espinho
se o encontrardes sozinho
dizei-lhe que espero por ele
Mas só até ao anoitecer
q'amanhã trabalho
(tem de ser...)

JATH

Segunda-feira, Dezembro 06, 2010

Hoje

Ontem quando ia embora
falava sozinho.
Repetia repetia repetia
que era Hoje
e que ninguém o conhecia.
Partiu ensimesmado
preso a uma fotografia
diziam-lhe que era passado
e quem diria?
que era o Amanhã guardado
e Hoje disfarçado
de dia, após dia, após dia...

JATH